quarta-feira, 12 de novembro de 2025

34°28 " S do ′ 17 57°50 " W do ′ 39 Vamos ao Uruguay?
Que o Uruguay é pequeno e encantador todo mundo sabe. Que tem uma excelente qualidade de vida, uma população gente boa, um estilo mais livre e menos careta também. Então, foi a minha escolha para completar mais uma volta ao redor do sol nesse ano de 2025. Foi minha terceira vez na banda oriental, sendo a segunda em Colônia e Punta Del Leste. No total, eu e o marido fizemos 3.716 quilômetros, desde o litoral de Santa Catarina, passando por Porto Alegre e atravessando a fronteira, na ida, em Jaguarão e Santana do Livramento, na volta. Foi muita estrada, estrada boa, estrada não tão boa, mas valeu muito a pena. Nas outras vezes sempre fomos pelo Chuy, que também é um caminho muito bonito, pois do lado brasileiro tem a belíssima Reserva do Taim, e a costa uruguaia é outro espetáculo, com seu Cabo Polônio que exige o transporte com os carros 4x4 locais. Mas dessa vez, o caminho feito por Jaguarão também revelou belas paisagens tanto do pampa brasileiro como do uruguaio. O retorno nos convenceu que o caminho por Rivera/Livramento não é tão bom. Os cem últimos quilômetros antes de Porto Alegre são caóticos e a estrada não está boa. O trecho de Rosário a São Gabriel então, abandonado. Quer a dica, vá pelo Chuy ou por Jaguarão.
Mas vamos começar a contar da viagem pela parada em Jaguarão. Que bela surpresa encontrar uma cidade brasileira tão preservada! Só senti falta de árvores pelas ruas. Se plantassem uns plátanos, ficaria igual a Colônia del Sacramento, e poderia incrementar o turismo. Me pergunto quando o Brasil vai se dar conta do que perde por não preservar seu patrimônio histórico. Ainda que o conjunto da cidade seja tombado pelo Iphan, se melhorasse um pouquinho com arborização a cidade seria encantadora. Cruzando a ponte em Jaguarão, adentramos a cidade uruguaia de Rio Branco. Uma paradinha no Shopping Panda para fazer a imigração e dar uma olhada nos preços (salgadíssimos) e pegamos a Ruta 18, rumo a Punta Del Este, passando por uma vastidão de terras onde pessoas são raras. As estradas são grandes retas, bem cuidadas e zero trânsito. É fácil se encantar com o Uruguay por qualquer caminho que você escolha. As paisagens se sucedem e vão mudando muito pouco. Porém, quando chegamos à região de Mariscala, pudemos observar formações rochosas e algumas colinas. Com o sol baixando, tudo foi ficando dourado. Quando chegamos à Punta já era início da noite. Certamente, Punta Del Este é a cidade mais cosmopolita do Uruguai. Talvez o que tenhamos mais próximo de Mônaco na América do Sul? A quantidade de embarcações de luxo ancoradas na marina revela que por ali transitam pessoas com "mucha plata".
A arquitetura modernosa de Punta


 Bom, não seria uma viagem planejada por mim se não tivesse uma "derrapada" com hospedagem. Quando eu estava montando o itinerário e planejando as reservas, achei que Punta estava cobrando muito por uma noite apenas, já que nosso objetivo na viagem era Colônia del Sacramento e Carmelo. Portanto, tracei a estratégia de gastar mais nos outros lugares e economizar em Punta. Ahã. O bolso agradeceu, mas o marido quando viu o hotel onde nos enfiei, deve ter pensado no divórcio. Vou preservar o nome do local, porque a ideia não é contribuir para a falência de um negócio que provavelmente já não vai bem das pernas. Mas cuidado, viu, com o Airbnb. Ultimamente tem falhado. Na minha pesquisa por acomodações, achei que no Booking os hotéis estavam muito caros, e como eu disse, era só uma noite. Na pesquisa do Airbnb achei dois hotéis que, aparentemente, cumpririam sua função a baixo custo. Falhei, miseravelmente. Quando chegamos, já de cara eu olhei desconfiada para aquela construção que parecia ter bem mais de cem anos. Ok, eu gosto de coisas e lugares históricos e antigos. Mas ali estava demais. Quando entramos e fomos fazer o check in, além da escuridão no local, não tinha ninguém, só um rapaz no balcão. Quando ele nos deu a chave e mostrou o quarto, eu só senti o peso do olhar acusador do marido, indagando: mas quem foi que disse que precisava economizar desse jeito? O quarto tinha piso de madeira coberto por uma forração dos anos 1940 ou 1950, no mínimo. O banheiro era um caso à parte. Todo marronzão, com uma banheira idem, bidê...quem ainda usa bidê? Se bem que nos outros lugares também tinha, acho que é um costume ainda em uso naquelas paragens. A janela, tipo guilhotina, não fechava (no banheiro). Só fiquei esperando ter algum visitante inesperado por ali, mas não aconteceu. Bom, no dia seguinte descobrimos que o hotel não oferecia café, embora estivesse previsto quando fiz a reserva. E aquelas pessoas que avaliaram bem o hotel no Airbnb? Acho que não estiveram lá de verdade. O jardim que era a foto mais bonita no Airbnb, bem, essa foto deve ter sido em outra década. Resumindo, só estávamos nós e mais um casal com uma criança hospedados lá. Ainda bem que em Punta descobrimos um show de rock bem animado na rua, e pudemos ficar até bem tarde da noite. Foram poucas horas passadas no tal hotel. Sempre tem que ter um perrengue, senão não seria emocionante. 
Sorte que os uruguaios gostam de uma música boa.

Punta é toda bonitona, vale rodar pela orla e ver a vida se desenrolando sem pressa por ali. Como ainda não era alta temporada, estava bem tranquila. Fomos a Punta Ballena, visitar a incrível Casa Pueblo do artista uruguaio Carlos Paez Vilaró. Foi minha segunda visita na casa que inspirou Vinícius de Moraes a cantar que "era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada". É de fato, uma construção pitoresca, debruçada diante das águas azuis do Atlântico, erguida a partir do sonho muito inspirado do seu criador. Ali você também pode se hospedar e desfrutar de um por do sol magnífico. Uma cafeteria e um museu também são boas opções no local. Para chegar lá, só de carro. Dessa vez, aproveitei para fotografar a casa em infravermelho. E ficou bonitinha. 


Rumo à Colônia Del Sacramento.

Em Colônia o fim do dia é um espetáculo de cores. Consegui colocar os prédios de Buenos Aires bem no centro da bolota do Sol.

Em Colônia, tudo certo. Dessa vez, o hotel era primoroso, o Hotel Butique Casa Lahusen (https://www.casalahusen.com/), sabia que não seria em vão a minha economizada em Punta. 
Há um ano sendo operado pela vinícola do mesmo nome, oferece quartos aconchegantes, um breakfast primoroso, além de outras experiências como chá da tarde, visita à vinícola, vinhos que você pode degustar ali mesmo servindo-se diretamente das garrafas, enfim, recomendo muito. Além do mais, todos os funcionários são hospitaleiros e atenciosos. E está no centro da cidade, muito bem localizado. Esqueça seu veículo no estacionamento e caminhe bastante. 



Colônia é um brinco, um espetáculo visual e uma demonstração de que a preservação histórica só beneficia um povo. Não vi um papel jogado em nenhum canto. Comer bem é uma espécie de regra tácita. Fazer tudo com calma, sem pressa. Dependendo da esquina que você vira, a impressão é de estar em outro século e que logo ali você verá uma senhora com suas vestes longas passeando acompanhada de um cavalheiro com uniforme de batalha. 
Note que a maioria das minhas imagens são captadas em infravermelho. Na minha opinião, é o casamento perfeito entre patrimônio histórico e fotografia.

Muito da arquitetura de Colônia é herdada dos portugueses, pois a cidade pertencia a Portugal e foi objeto de várias invasões até ser finalmente conquistada pelos espanhóis. 
O icônico Farol de Colônia


Saindo de Colônia, rumamos para o grande objetivo da viagem que era a cidade de Carmelo e seus vinhedos. Da outra vez que fui a Colônia, já queria ter conhecido Carmelo, mas não houve tempo suficiente. O que eu lia a respeito é que Carmelo, por suas vinícolas, é conhecida como a "Toscana latino-americana". Bom, eu não conheço a Toscana ainda, exceto por fotografia e filmes. Mas aqui no Brasil, com certeza, temos uma região que é mais merecedora desse título comparativo. Quando começamos a chegar em Carmelo eu perguntei pro marido: mas será que eles conhecem a Serra Gaúcha? Nós residimos por muitos anos no Rio Grande do Sul, e se tem um lugar que eu conheço bem é a serra gaúcha. Explorei muitas das cidades que compõem o cenário vitivinicultor da região serrana e, vou dizer, ganha fácil da Toscana uruguaia. Nos últimos anos a região brasileira se profissionalizou, e é sensacional a maneira como o turismo ganhou impulso na região. Qualquer dia vou fazer um post sobre algumas joias da dita Toscana gaúcha. Porém, aqui, o texto é sobre o Uruguay e suas bodegas, então vamos retomar.
A casa de pedra vista de cima da Puente Castells


 Ainda que os meus olhos estivessem um pouco decepcionados por não encontrar a paisagem idealizada, aos poucos foi se desenhando o contorno de uma paisagem ricamente histórica. Por outro lado, é o destino do enoturismo no Uruguai, então os vinhos são o motivo principal de querer estar ali. 
Na região central da cidade uma ponte vermelha faz a ligação sobre o Rio Arroyo de Las Vacas, e é a única ponte giratória operada manualmente que se tem notícia, em operação. Não vimos ela sendo acionada, mas rendeu algumas fotos. Uma cidade com uma população mais envelhecida, sem prédios, apenas casas. Quem colocou Carmelo na rota do turismo foi um investidor argentino que já vivia no Uruguai, e ao casar com uma rica herdeira local, ambos resolveram investir no turismo de luxo, adquirindo uma antiga vinícola que depois foi ampliada e também oferece hotelaria, além de uma diversidade de outros negócios. Depois li que foi ele quem cunhou o tal título de "Toscana latino-americana" para Carmelo. Esperto. 


Saindo do centro de Carmelo, e entrando na área rural das bodegas, nossos anfitriões em Carmelo foram o Aldo e a Gabriela, proprietários da charmosa e acolhedora "Cabaña La Toscana" (https://www.instagram.com/toscana_uy/). 
Nossa "moradia" em Carmelo, bem equipada, charmosa e silenciosa

O Aldo foi nos passando várias dicas de locais para conhecermos e degustações imperdíveis. Aquela que ganhou meu coração foi a do Almacén de La Capilla, que a propósito, fica na esquina da Cabaña, o que vem bem a calhar depois da farta degustação de vinhos que eles oferecem, pois você vai e volta caminhando. Se tiver coragem, o Aldo e a Gabriela oferecem bicicletas na hospedagem. Mas quem arrisca se equilibrar depois da visita etílica? 

Os preciosos vinhos Cordano - faltou a grappa con miel - no te olvídes


A Bodega Cordano, que vem a ser o Almacén de La Capilla (https://www.instagram.com/almacendelacapilla/) é gerenciada pela Ana e pelo Diego, que são a quinta geração da família Cordano que ali se estabeleceu a partir de 1855. O local é uma perfeição, porque conserva com todo primor a história familiar como ela é, desde os primórdios. Se bobear, você é saudado pelo Señor Angel Cordano passando com uma botella do seu melhor tannat para você provar. Nós almoçamos e fizemos degustação com eles, e na minha opinião, foi a melhor que já fiz até hoje, seja pela atenção dos anfitriões, pela qualidade do vinho e do alimento servido, pela beleza do lugar, pela história presente em cada canto, pela fartura das doses e, pelo toque final, uma grappa com mel feita por eles que é uma seda descendo pela garganta. Como eu digo, vá e seja feliz! 
A encantadora Bodega Almacén de La Capilla


Depois da experiência com os Cordano, foi a vez de conhecer a magnífica Narbona. Sim, a do investidor que lançou Carmelo ao turismo global. Para chegar à Vinícola, você precisa passar pela Puente Castells, em cima do Río de Las Víboras. Essa antiga ponte de pedra, hoje coberta por asfalto, tem vista para uma belíssima propriedade também de pedra, à beira do Rio das Víboras. Segundo me disseram, essa propriedade seria do dono da Vinícola Narbona. Logo em seguida fica a Vinícola Narbona. Lembre-se de reservar antes de ir. Eu tentei, mas não consegui, participar da experiência que eles anunciam como "enólogo por um dia", onde você pode brincar de fazer vinho. A informação é de que seria apenas para grupos. Tentei. A propriedade Narbona é imensa, conta com a hospedagem, loja, padaria e restaurante (https://www.narbona.com.uy/pt/). A degustação com queijos e vinhos é feita num porão, ricamente decorado com peças da época da construção. Os vinhos são bons, o queijo fabricado por eles é excelente, assim como o mel e doce de leite. A simpática argentina Chiara foi nossa sommelier na degustação. Recentemente, a Narbona inaugurou uma loja no Shopping Continente, em Florianópolis. Pretendo averiguar como são os preços por aqui. 
A requintada Narbona


Nos dias que se seguiram, enquanto o marido trabalhava online, eu desbravava a região. 
Ainda em Carmelo fui até a Calera de Las Huérfanas, um antigo sítio jesuítico em restauração. 


Nas ruínas que você visita livremente, está contada a história da exploração de atividades produtivas utilizando-se mão de obra escrava, até a expulsão dos religiosos em 1767. No local ainda existem os fornos de cal, material abundante na região, que me levou a outro lugar histórico, a Estância Y Capilla Narbona (nada a ver com a vinícola). Lá encontrei o Senhor Bernardo que toma conta do local e gentilmente narra toda a história e leva você a conhecer todos os cômodos da antiga construção, onde a Capela construída por Juan de Narbona, e uma das maiores relíquias do Uruguay, é a estrela do sítio. Do topo de sua torre você avista os navios chegando ao Porto de Nueva Palmira outra cidadezinha pequena e antiga da região. Naquele dia, chegava um navio carregado de barcaças com minério oriundas, segundo o Señor Bernardo, do Pará. Ele parecia uma criança com um brinquedo novo quando avistou o navio, pois havia subido à torre para me mostrar os arredores e avistou o navio que ele já esperava que chegasse por aqueles dias. Ria e fotograva, feliz da vida que deu a sorte de subir bem na hora que o navio passava pelo ponto do rio que se avistava do alto da ruína.

O interior da Capela construída pelo Narbona original

Ali perto, em Punta Gorda, é possível conhecer o Rincón de Darwin, onde este senhor esteve em 1833 por quase seis meses, coletando e admirando. Bem ali em frente fica o quilômetro zero do Rio Uruguai, que ali termina desaguando no Rio da Prata. Sentei numa pedra depois de descer os cento e tantos degraus que levam à beira do rio e me perguntei se o Darwin não fez o mesmo. Tudo isso e muito mais você fica conhecendo nessa região próxima de Carmelo. 
Uma câmera na mão sempre conquista amizades


Agora, resumidamente, minhas impressões sobre essa última visita ao Uruguay. Para nós brasileiros, o Uruguay tornou-se muito caro. Nosso real, pobrecito, está muito desvalorizado. Mas que não está fácil para os uruguaios, também não está, e isso é confirmado por eles mesmos. Um país com uma população tão pequena, em que quase tudo é importado (pasmem, até a erva-mate que eles tanto consomem é nossa, sim eles importam "de montón" aqui do Brasil), não há concorrência, investimentos não encontram demanda. O país baseia sua economia na criação de gado, mercado financeiro e serviços, e onde há quatro vacas por habitante, isso é muita coisa, você ter mais gado que gente. Claro que menos população tem suas vantagens, mas explica também muitas dificuldades. Da impressão que tive de estar viajando no tempo, eu tirei uma imagem significativa: existem muitas escolas rurais no Uruguay, mas mesmo nas escolas em Colônia eu vi a mesma cena: crianças usando um uniforme que varia muito pouco o modelo, uma espécie de túnica branca acinturada e com uma gravatinha azul que parece um laço, mesma coisa para os meninos, ainda que o deles se pareça com uma guarda-pó. Vi essas crianças correndo e brincando alegremente nos pátios, com essas roupinhas e brincando à moda antiga. Não vi celulares por ali. Será que o Uruguay conseguiu conter essa modernidade indesejada? Na nossa volta, a caminho de Rivera, fizemos uma parada em Durazno, e ali vi outra cidade perfeitamente preservada e arborizada como deve ser. Muito parecida com Colônia, um pouco maior e mais moderna. Mas muito aprazível. Quase chegando em Rivera, a paisagem se tornou muito parecida com a nossa planície na região serrana de Lages, em Santa Catarina. Uma curiosidade sobre Rivera e Santa do Livramento, ambas dividem uma praça binacional, que quando você está nela você está nos dois países ao mesmo tempo. Fora que você troca de lá para cá nas ruas, e uma hora é Uruguay e outra hora é Brasil . Quando eu via o anúncio da Unimed pensava, opa, agora estamos em casa. Virava a esquina e via um "ústed" e pronto, estava no estrangeiro. Alfândega no shopping, tal e qual em Rio Branco, portanto, tudo muito tranquilo.  
Vou acrescentar uma linha a mais no texto, para falar sobre um vinho espetacular que só provei quando cheguei em casa: o tetravarietal Oceânico, Los Ranchos. Comprei-o num mercadinho em Carmelo, porque gostei da garrafa bojuda e da promessa "oceânica". Pois bem, passado um mês da viagem, abri hoje e fiquei surpresa. De cara, o odor profundamente "oceânico" que emana na taça. Me remeteu à tantos lugares de praia que já senti na vida! Você já deve ter sentido esse cheiro de casa de praia, meio maresia, meio madeira, um toque de couro envelhecido. Uma mistura de coisa de praia mesmo. E o sabor não fica atrás. Minha super dica: 
www.losranchos.com.uy
 


No total, foram 50 horas rodando por estradas, numa viagem prazerosa e muito bem aproveitada. Nosso trajeto praticamente cruzou Santa Catarina, Rio Grande do Sul e o Uruguay. Vimos pessoas e seus costumes, paisagens deslumbrantes, gastronomia de excelência e atitudes que convidam à harmonia. E aí, se animou para viajar? Planeje, vivencie e desfrute. A vida é só essa, então corre viver! 
(Grafei Uruguay com Y em respeito ao original).




34°28 " S do ′ 17 57°50 " W do ′ 39 Vamos ao Uruguay? Que o Uruguay é pequeno e encantador todo mundo sabe. Que tem uma excelente ...