Este não quer ser só mais um blog sobre fotografia e viagem. Mas esse é um blog sobre fotografia e viagem (!) Tem tanto mundo por aí, só esperando você chegar nele, que não dá pra não falar, não mostrar. Tem mundo que se repete, mas tem mundo que não se conhece. E cada mundo tem um olhar que encontra nele um significado diferente. Então o que eu quero mesmo é mostrar o mundo que eu olho, pra você olhar com seu jeito, se achar que vale a pena. Vem comigo dar uma espiada no Mundo Por Aí?
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
Latitude: 39.2003, Longitude: -7.65913 39° 12′ 1″ Norte, 7° 39′ 33″ Oeste Vamos a Alter do Chão?
Enquanto as percepções ainda estão firmes na memória, vamos dar uma volta pela linda terra do Carimbó, que é regida pelo ritmo do Rio Tapajós. Se você leu minha primeira postagem no blog, você sabe que a pessoa teve uma fratura séria seis meses atrás, e desde então deixou de fazer tantas andanças por aí, até se sentir mais confiante, e agora finalmente as estrelas se alinharam e realizei o sonho de Alter do Chão. Em 2017, no Canal Arte 1, estreou um programa sensacional pra quem curte fotografar, chamado Arte 1 na Fotografia, um reality de fotógrafos conduzido pelo Éder Chiodetto e o Cláudio Feijó. Desde lá, comecei a seguir os dois, e com a pandemia foi possível participar dos cursos online que ambos ministram (o do Cláudio é o Desolhar). Duas figuras fantásticas e acessíveis, cada um com uma sensibilidade própria e uma maneira particular de acolher os alunos. O Éder costuma realizar uma expedição fotográfica para Alter do Chão anualmente. Desde que eu soube disso, me assanhei e comecei a acreditar que um dia eu iria. Dito e feito, 2022 começou assim: organiza daqui e dali, e 31 de janeiro foi o dia de desembarcar em Alter e começar essa viagem pelo fantástico mundo dos rios do Baixo Amazonas, tentando desenhar com a luz e buscar algum sentido para o que eu vejo. Ou então não ter sentido nenhum, e apenas se deixar levar. O fato é que você não precisa gostar de fotografia para ir e ter uma camada da pele trocada nesse lugar. Apenas vá. Vou contar como foi a minha experiência. Mas com certeza, será apenas uma pincelada do que há por lá. Chegar em Alter do Chão não é difícil, todas as companhias aéreas têm conexões que te levam a Santarém, e chegando lá, 37km de uma estrada bem conservada te levam a Alter. É claro que se você se organizar antes, fica tudo mais fácil. Já no avião, observando a paisagem pela janelinha, é como voar no tempo e voltar a ser a criança que se deslumbrava com o Atlas Geográfico Brasileiro. Está tudo lá, igualzinho. Aquele mar verde da floresta, com rios serpenteando, refletindo os raios do Sol, desenhando caprichosamente caminhos por onde escorrem minúsculos (porque vocês está lá em cima) barcos que navegam mansamente. Nosso Master Guia em Alter foi o Daniel Govino (no Instragram @daniel_exp), produtor e fotógrafo paulista que conheceu Alter e não quis sair mais de lá. Sabe tudo o Daniel, e eleva a segurança do passeio. Aliás, tanto ele como Éder foram impecáveis nos mínimos detalhes de toda a organização da expedição. Nosso primeiro dia foi uma visita à Santarém, com direito ao avistamento dos botos cor de rosa (sim, eles existem), no trapiche central. Meninos ficam atiçando os botos com iscas de peixe, fazendo a alegria da turistada. Faz parte. No mercado central, os cheiros já vão te indicando que ali tem coisa boa, e quando você vê, as gentes já estão te oferecendo pedaços de delícias que você nem sonhava existirem...só indo lá pra provar. O segundo momento do dia foi uma volta de barco que você pega ali mesmo, para ver o encontro das águas do Tapajós e do Amazonas. Que encontro...Quando você pensa na enormidade desses dois rios, com cores diferentes, são dois gigantes lutando pelo domínio do espaço, cada qual exibindo sua força. Você se torna um espectador espantado, arregalando mais e mais os olhos para tentar absorver tanta vastidão. Meu resumo sobre os rios que cortam aquelas paragens: os rios dominam. os rios dominam o ritmo da vida. os rios dominam o ritmo das pessoas. os rios dominam o ritmo da floresta. o tempo escoa no ritmo dos rios. não há controle que não o dos rios. O terceiro momento do dia foi a Floresta Encantada. Ela não tem esse nome à toa. No inverno amazônico (de novembro a maio), o rio sobe muito e alaga vastas áreas da Floresta, formando os igapós. Nosso passeio por essa fantástica área foi acessado pela estrada. Tive a sorte de repeti-lo entrando pelo Lago Verde, e vou comentar em seguida. Mas o deslizar pelas águas encantadas, se faz com uma pequena canoa de madeira. Desligue de tudo e abra bem os olhos, cheire o ar, deslize os dedos na água, imagine que olhos estão te espreitando. Apenas sinta. Você começa sentir o poder curativo dessa região a partir desse encantamento. Saiba aproveitar. Mas atenção, se for nos meses de março a abril, encontrar uma sucuri parece ser normal. Corte para o segundo dia. Hora de navegar. Nosso anfitrião e mentor nos levou ao Isabelle II, um barco motor dotado das prosaicas redes no convés superior, onde bons cochilos são tirados, principalmente se você embarcou às 05h30 da manhã. Isabelle II é um barco elegante, com uma tripulação extremamente gentil, que deve ter se divertido com as conversas que ouviam (vamos lembrar que o grupo era formado por 13 mulheres alunas, mais duas moças filhas de participantes, e de um marido santo que acompanhou a esposa sem reclamar de nada. Assunto não faltou. Éder pensou em todos os detalhes e nos brindou com a jovialidade e mão cheia da Cideca, uma cozinheira raiz que fez os melhores pratos que podíamos querer. Um dos melhores aprendizados tive com a Cideca, quando falávamos sobre idades, e ela me contou que sua avó dizia quando a chamavam de senhora: velho é o mundo que tá aí faz tempo, eu recém cheguei. Navegamos um bom tempo até alcançar o Rio Arapiuns (afluente do Tapajós) e a vila ribeirinha de Urucureá, onde encontramos e tivemos uma aula de empreendendorismo pela voz de Isabel, líder das mulheres que confeccionam cestaria com palha Tucumã. Segundo Isabel, são mais de 30 anos se aperfeiçoando até tornarem-se fornecedoras de clientes da Alemanha, São Paulo e Rio de Janeiro, sobrevivendo basicamente dessa linda arte. Dá um nó na garganta ouvir a luta dessas mulheres, mas ao mesmo tempo um orgulho danado de ver como tomaram o destino em suas mãos e mostram ao mundo sua capacidade de trabalho e inventividade. Não deixe de conhecer esses produtos em https://www.artesol.org.br/turiarte você pode adquiri-los diretamente e contribuir com esse projeto dão digno. (@turiarte_amazonia) Nossa segunda parada foi numa praia do Rio Arapiuns, onde teve banho de rio, coleta de materiais para trabalhos fotográficos e...um encontro arriscado. Várias de nós devemos ter passado pela bichinha, mas ninguém percebeu, até que a Beatriz ouviu o som característico e localizou de onde vinha...placidamente camuflada entre galhos e palhas, uma cascavel de lindas cores a observava. Susto? Não, ainda teve close. A espécime invasora, afinal, éramos nós. (imagem: Beatriz Monteiro) O dia terminou com show do Sol e das estrelas que já começavam a brilhar. O dia seguinte foi livre para começarmos os trabalhos fotográficos, o que levou à uma rápida visita no cartão-postal mais conhecido de Alter do Chão, a Ilha do Amor, formação de extenso banco de areia, acessada nesta época somente pelas catraias ou outros pequenos barcos. A travessia se chama "barcada", mas no verão é possível fazê-la a pé mesmo. À noite, veio a "carimbóterapia" com a família do Mestre Griô Chico Malta. Apesar de ser uma aula longa, valeu muito a pena ter a oportunidade de conhecer e praticar um pouco. Entender que uma dança envolve vários significados e é orgulho de um povo. Aliás, sabia que o Carimbó tornou-se Patrimônio Cultural Brasileiro? E então chegou o dia de irmos à Flona, Floresta Nacional do Tapajós. Magia instalada, a pessoa mais uma vez sentiu o peso da mal sucedida trilha de Laguna. Minha perna ainda não está em condições de andar sozinha por aí por 11km, extensão da trilha que leva à magnífica Sumauma, a gigante da Amazônia. Por isso, só consegui fazer o acesso da trilha, cheirar a árvore do Breu Branco, ver formigueiros nas árvores (!!!), ter uma pequena aula com o Daniel sobre a fragilidade da floresta devido ao seu solo arenoso e pobre, sujeito à desertificação fácil fácil no ritmo que estamos indo na destruição. Felizmente não estava sozinha na frustração de não participar da trilha, e na companhia da Andrea, tivemos a sorte de navegar por mais um igapó, este muito luminoso. Ali você pode conhecer um pouco da extração do látex e comprar artesanato feito a partir deste produto. Quem vai até o final da trilha, depois de despistar formigas, é abençoado com o banho no igarapé mais transparente do mundo. O dia terminou com mais Sol feliz. Falando em feliz, felizes fomos nós que não tivemos a chuva esperada para a época, exceto na madrugada, em nenhum dos dias. Pudemos fotografar e apreciar tudo, sem preocupação. E o fim de semana foi chegando, já anunciando que a viagem estava se aproximando do final. Dia de navegar pela última vez com a linda Isabelle, fomos almoçar no badalado Casa do Saulo, um restaurante integrado à mata, com comida divina. Nossa Adriana aniversariava no dia, e foi recebendo bolos aqui e ali. Sobre a culinária paraense, vou fazer uma segundo post, porque é tão boa, mas tão boa, que merece ser contada à parte. Terminamos o dia no Canal do Jari, que separa a briga dos gigantes (lembra, o Tapajós e o Amazonas). O Daniel nos contou que existe uma teoria de que os povos indígenas teriam cavado o Canal do Jari, para inundar o Tapajós com a riqueza do Amazonas. Faz sentido, mas sendo assim, temos um gigante em vantagem. No finzinho do Canal, troca para uma canoinha, pula umas tábuas em cima de um alagado (onde soubemos que vivem lindas sanguessugas - meu momento superação, por que a lama por ali me trazia de volta ao episódio de Laguna), troca para um barquinho maiorzinho, e pimba, lá estavam as belezuras das vitórias régias, outro sonho de infância. Coisa linda de se ver, cultivadas pela família do seu Mateus. Eles oferecem degustação de produtos a partir da vitória régia. As danadinhas são lindas, dão flor e tudo, mas têm espinhos nas laterais. A Natureza sabe como se defender. O dia foi acabando, a melancolia foi descendo no camarote que se formou na proa superior do Isabelle. Os dedos estavam quietos nas máquinas, os sons da Floresta foram despertando, o pôr do sol que foi encomendado chegou delicado, suavizando os olhos. Não houve explosão de cores. Houve mansidão. Era a magia da Floresta comandando o espetáculo e dizendo assim: você só saberá se eu deixar você saber. Despedidas, promessas de reencontros, missão cumprida por todo mundo. Certamente saímos de Alter com uma visão diferente da Floresta que aprendemos a conhecer dos livros, dos filmes, dos documentários. E se soubermos manter a magia, teremos aprendido a lição da Floresta. Último dia em Alter Terminei a viagem com uma rápida viagem até Belterra, o "plano B" de Henry Ford para extrair a borracha da Floresta. Guiada pelo Francisco, fui descobrindo que não funciona impôr uma cultura na marra à uma população. E à uma população que tem os rios e a Floresta como guias, menos ainda. Vá conhecer Belterra, experimentar a estrada que é uma aventura em dia de chuva. E o presente final, dica do Daniel, foi o passeio até a Floresta Encantada (mas de novo?) via Lago Verde. Mestre Chico Malta nos avisou, vocês precisam ir até a Floresta Encantada pelo portal do Lago Verde. A joia verde de Alter do Chão descortina uma visão que vai tirando seu fôlego, até você achar que entrou em outra dimensão. Cenas do filme Tainá foram filmadas ali. Crianças encantadas se divertem nas árvores, e se jogam nas águas que prometem a cura e a juventude. Mas a melhor dica do Daniel foi o lancheiro, o Jorginho. Jorginho tem 19 anos, é um menino batalhador que já é dono do seu próprio barco a motor. É músico que estudou em conservatório de Santarém, sabe tudo sobre a história da região, discute evolução das espécies com você, toca trompete, flauta e percussão, e ainda faz poema pro cliente (o meu fecha esse post). Me levou conhecer a praia do Pindobal (e se espantou - mas a senhora não vai tomar banho no rio?) me levou beber água do Aquífero de Alter do Chão, e me deu os números, que são impressionantes, do volume d'água, me mostrou a divisa na água de Belterra e Santarém, e me levou ao Sítio Arqueológico do povo Borori na Ponta do Caxambu, que tem um lago absurdamente lindo. Me contou sobre lendas, sobre gentes e falou sobre seu sonho em advogar. Jorginho foi mais uma das pessoas que dão orgulho em conhecer, e que fazem essa gente de Alter muito especial. Meu respeito a esses batalhadores como a Cideca, a Isabel, ao Daniel que luta pela preservação do bioma. Gente que faz sua parte e nos dá uma lição de humanidade. Vá a Alter do Chão. Vá de coração e mente abertos. Ouça a Floresta, ouça os rios. (siga o Jorginho em @curimbó_turismo_) Hoje minha amiga Joice. Veio por aqui encontrar. As passagens mais bonitas. Feitas pra fotografar. Levando muitas imagens. Do Rio e da imensidão. Mas a maior lembrança. Carrega no coração.
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